Ticiana Villas Boas diz que tem noção da responsabilidade que é ancorar o "Jornal da Band"

06 agosto, 2013


Você entrou no jornalismo porque queria escrever sobre cultura. Você conseguiu fazer trabalhos neste sentido?
No começo, consegui. Digo que conheci o jornalismo fazendo jornalismo. A escolha da profissão aos 17 anos é muito cedo. Não tinha o hábito de ler jornais, por exemplo. E quando lia, geralmente era o caderno 2, de cultura. Era ligada mais à arte, fui professora de balé na época. Gostava de ler e escrever, era o que eu sabia fazer e por isso decidi investir no jornalismo. Acabei cobrindo o assunto, mas por pouco tempo. Comecei a carreira na TV Cultura (TVE de Salvador), me formei lá. Tínhamos quadros e programas sobre agenda cultural da cidade e eu fazia. Depois, fiz documentários e fiquei apaixonada. Adorava ir para a rua e me aprofundar nos assuntos.
Por que televisão?
Foi acontecendo. Foi o meu primeiro estágio. Na época, me inscrevi em todos os programas de trainee. Fiz trabalho de comunicação para faculdades, cobri eventos, escrevi para jornais. Mas a primeira oportunidade foi em TV. Por isso entrei e fiquei. Não tive experiência fixa em outras mídias, fiz apenas alguns freelas para sites, rádios, impressos e assessoria de imprensa. Em TV, fui funcionando, dando certo e descobrindo coisas interessantes. A nossa área é muito dinâmica, muito encantadora. Comecei fazendo roteiro de um quadro cultural, agenda da cidade e produção de programa de entrevista. Passei por todas as áreas: desde servir cafezinho até trocar papel de fax.
Você considera que a nossa profissão passa por uma crise?
A mídia está passando por uma crise financeira. Essa situação afeta os jornalistas e o modo de trabalhar. Hoje, falta vaga e sobra profissional na praça. Tenho medo que a crise financeira no jornalismo afete o conteúdo.
Já está afetando?
Não consigo avaliar, mas corre o risco. O mercado está em crise, a tendência é que o profissional aceite fazer o que for para ficar no emprego. Aceitar a opinião do grupo que talvez não concorda, a opinião do chefe, uma indução ali e outra aqui. Esse é o risco. Quando o mercado está fortalecido, tem como questionar e falar que não aceita a visão, e procurar outro lugar. Mas quando está em crise, você vai fazer o quê? Você vai ficar e fazer o que querem que você faça. Os bons profissionais, que não querem passar por isso, saem. Mas fica quem se submete. Afeta não só o desemprego, mas também a própria forma de fazer o jornalismo.
Como você se sente vendo esse momento?
Sinto-me impossibilitada. Não sei o que fazer. É um momento que dá para fazer um paralelo com as manifestações: ninguém sabe, ainda, onde vai dar. É um momento importante, todo mundo tem que ficar de olho, ficar atento ao que está acontecendo, mas ninguém sabe o que vai acontecer. Temos que estar firmes a conceitos e valores.
Qual é a responsabilidade de apresentar o principal telejornal da emissora?
É um peso. Tem cinco anos e até hoje fico nervosa e ansiosa. Principalmente quando tem algo que sai do padrão, como apresentar em externa, ou cobrir evento ao vivo. Meu coração acelera todo dia quando entro no estúdio. Tenho noção da responsabilidade. Quando olho para o lado e vejo Boechat eu penso: “Meu deus, onde fui me meter!? Não merecia isso tudo”. Para mim, Boechat é grande referência, é um jornalista envolvido, crítico e original. Ele se preocupa com todos os lados da notícia. É muito difícil trabalhar com uma pessoa que você admira imensamente. De certa forma, isso inibe e te deixa um pouco insegura. Mas, Boechat é tão gente boa, simples, acessível e tão meu amigo compensa por esse lado. Trago ele para a realidade e isso vai quebrando o clima.
Como é o dia a dia com o Boechat?
É um aprendizado eterno e diário. O legal do Boechat é que ele está sempre disponível. Não só para mim, como para todo mundo. Desde o técnico de operador de áudio que pergunta alguma coisa, quanto para as pessoas que mandam e-mail. Nunca vi alguém responder tantos e-mails como ele. Enquanto tive pânico, ele não parou um minuto de responder todos os e-mails e mensagens no celular.
Como foi trabalhar ao lado de Joelmir Beting, definido por você como insubstituível?
Joelmir estava diariamente comigo. Era uma pessoa doce, meiga, simples e humilde. Ele me valorizava e me fazia acreditar que eu poderia dar certo. Quando cheguei à bancada, era muito jovem, tinha 27 anos, e seria a única mulher do jornal. Ele poderia ter me recebido mais friamente. Mas não, ele me ouvia e me levava a sério. Talvez nem ele achasse que eu era tão boa quanto falava, mas me valorizava sempre. Ele me ensinou a ter autoestima e segurança.
Essa é a grande lição que ele deixou?
Foi. Pessoas incríveis você tem que aproveitar ao máximo, perguntar mesmo, aproveitar que ele está próximo. Consegui entender mais um pouco do país, de economia, de política. Fora isso, teve a questão da segurança e é algo muito necessário para quem vai encarar a apresentação de um jornal. O telespectador precisa dessa segurança e foi Joelmir quem me ajudou. Todo apoio de base emocional foi ele quem me deu.
O que a ausência dele significa?
A gente está se virando. Não para preencher, a gente não preencheu e nunca vai preencher o espaço dele. O máximo que a gente fez foi mudar as cadeiras do lugar, para não ficar o buraco na bancada. Mas ficou o vazio. Não colocamos outro comentarista, ninguém faz o que ele fazia. Ele é e foi insubstituível.
Para TV, há a máxima dos âncoras terem sotaque “padrão”. Como você vê o fato de a Band respeitar o teu jeito de se comunicar?
Não saberia dizer se conseguiria ser ou falar de outro jeito. Visto a camisa da casa. Tudo que consegui foi porque eles acreditaram e gostaram de mim. Acreditaram no diferente, que dava para apostar nessa forma. Quando não temos uma estrutura muito grande como a Globo, temos que procurar caminhos alternativos, tem que arriscar. E a Band tem isso muito claro. Nunca me pediram para tirar o sotaque. Nós fomos testando. Fui ganhando espaço e ficando. Hoje, o que ouço é que um dos diferenciais do 'Jornal da Band' é esse. O Brasil é grande, não tem só Rio de Janeiro e São Paulo para manter esse padrão. Ter sotaque nordestino em uma TV nacional quer dizer que pode ter gaúcho também, potíguar e mineiro. As pessoas gostam da pluralidade e estávamos precisando disso.
Geralmente quem trabalha em TV está mais exposto a críticas. Como você lida com isso?
Evito saber. Quando comecei a apresentar o ‘Jornal da Band’, no quadro do tempo aparecia o meu e-mail. Todo dia quando chegava, tinham de 100 a 200 mensagens. Eram muitas críticas e eu ficava mal lendo. Pensava: "Poxa, a pessoa nem me conhece e está falando isso, falando que meu sotaque é péssimo e que eu não falo direito". Eram muitas críticas sem sentido e coerência. Não me acrescentavam em nada. Então, bloqueei o meu e-mail e nunca mais abri. Até hoje. Tirei do ar e parei de administrar. Comecei a trabalhar intuitivamente, acreditar que se tinha dado certo até ali, continuaria dando. Até hoje trabalho assim. Não leio nada e nem me vejo no vídeo. Não gosto da minha voz, me acho feia e exagerada. Então, faço sem ver. O único feedback que ouço é das pessoas que estão muito próximas. Minha mãe, meu marido, minhas amigas, a redação, o chefe e o diretor.
Você veio para São Paulo porque foi insistente. Trocou suas funções com outros profissionais e aproveitou oportunidades como férias de outros jornalistas. Não fosse isso, você teria a oportunidade de estar à frente do principal telejornal da emissora?
Essa história é longa [risos]. Geralmente, falo que fiquei na reportagem um ano na Band Bahia, o pessoal de São Paulo me viu, gostou e me chamou. Não foi assim. Mentira! A verdade é que tinha o repórter de nacional na Band Bahia. Ou seja, nunca ia ter espaço para mim. Ficava percebendo quando ia ter uma vaguinha, procurava fazer uma boa matéria pelo menos duas ou três vezes por semana. Eram matérias produzidas, com uma ideia legal. Na Bahia, vende bem pauta de comportamento, e sempre gostei muito de fazer entrevista e matérias assim.
Como você se organizava para fazer esse conteúdo?
Tinha parceria muito grande com a minha equipe, que agradeço até hoje. Cinegrafista, auxiliar e motorista sempre ficavam até mais tarde comigo para que eu conseguisse gravar a pauta extra. Era muito difícil, não é fácil estourar o horário e ainda tínhamos que dividir o equipamento com outra equipe. Mas conseguia fazer e às vezes emplacava algo no nacional. Eu ligava para São Paulo oferecendo o meu conteúdo. Na época, era Carlos Nascimento que comandava o jornal. Eu mandava e-mail para ele e ligava perguntando se ele já tinha visto. Em determinado momento, o repórter de nacional e a apresentadora da Band Bahia entraram de férias. Como eu tinha o rosto bonito todos queriam me empurrar para apresentação, mas escolhi a reportagem porque achava que teria mais oportunidades. Foi assim que consegui mostrar o meu trabalho aqui em São Paulo.
E deu certo?Meu objetivo era vir para cá. Vejo que esse foi o caminho certo. Passei um tempo na cidade trabalhando como repórter. Voltei para a Bahia. Depois de alguns meses me chamara para uma vaga e eu vim. Estou até hoje. Em dois anos, fui convidada para ser apresentadora. Foi um período curto e intenso. Acho que se eu não tivesse feito isso, não estaria onde estou hoje. É como a história do filme “Efeito Borboleta”, são escolhas que você faz e que definem a sua vida inteira. Se eu tivesse escolhido ser apresentadora, ido pelo caminho mais fácil e cômodo, não estaria aqui. Foram várias decisões. É sorte e suor.
Como foi a sua adaptação?
Eu era repórter do primeiro jornal, das sete da manhã. Saia às cinco da manhã de casa, não tinha nem tempo para pensar em me adaptar. Não dava para pensar em nada. Eu só trabalhava. Trabalhava intensamente na semana e fazia os plantões. Trabalhava de sábado, domingo, todos os feriados. Então, simplesmente foi. Quando mudei para apresentação, comecei a ter horário fixo, aí estruturei a minha vida. Investi em cursos, consegui sentir a cidade, criar rotina e sair com as amigas. Conheci a cidade e aprendi a viver nela.
Como está o projeto do programa que você gostaria de criar?
Eu queria um programa com conteúdo jornalístico, mas com estética e formato mais leve e linguagem de entretenimento. Mas o conteúdo sempre seria jornalístico. Ainda não consegui colocar em prática, estou levantando ideias. Minha ideia não é deixar o ‘Jornal da Band’, mas fazer algo paralelo. Já são mais de cinco anos na bancada, queria algo para me testar. Porém, tudo é muito delicado, tem muita coisa envolvida, como por exemplo, a minha imagem e a do jornal.
Quem são os seus mestres?
Têm muitos jornalistas bons. Gosto muito de Ernesto Paglia, Francisco José, Zé Raimundo e Fábio Pannunzio.

Entrevista concedida ao Portal Comunique-se!

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