Depois de algumas polêmicas envolvendo processos judiciais,
desentendimentos com antigos colegas de trabalho e piadas consideradas
ofensivas por uma parcela do público, Rafinha Bastos voltou a uma
posição de destaque na TV aberta. Substituindo Danilo Gentili no talk
show Agora É Tarde, Bastos tem agora sob seu comando um programa
de formato consagrado – e um cargo bastante desejado. Pessoalmente, não
se trata de “um novo momento” ou uma volta por cima, ele garante.
Você sente algum tipo de remorso em relação à maneira como deixou a Band em 2011?
Olha,
remorso não é a palavra correta. Eu não me arrependo em nada de ter
saído, achei que foi o momento certo. Mas eu poderia ter avaliado com
mais calma a saída d’A Liga, por exemplo, que era um programa do
qual eu gostava muito. Mas eu senti que naquele momento era o melhor a
ser feito, e tudo que o que aconteceu gerou isso que está acontecendo
agora.
A entrevista que você deu para a Rolling Stone Brasil em 2011 lhe rendeu um processo, por causa de uma piada sobre estupro. Foi o estopim para um período negativo na sua carreira?
Cara,
como é que eu posso dizer que foi um período negativo, se hoje, dois
anos e meio depois, eu tenho meu talk show? Será que de repente eu não
teria que passar por isso por uma questão de amadurecimento meu ou da
comédia? Tudo mudou muito a partir daquele momento. E qualquer pessoa
que tivesse ido ao meu show, um espetáculo para 150 pessoas, poderia ter
descontextualizado uma frase minha para me prejudicar. Não foi esse o
objetivo da revista. O que aconteceu foi um processo muito louco de
pessoas que descontextualizaram um depoimento meu que foi publicado na
entrevista. A própria piada, que era absurda, estava muito
contextualizada.
Você usou agora o termo “piada absurda”. É uma piada que você não faria de novo?
Essa
piada foi feita em um clube de comédia, onde as pessoas pagam para
assistir a um comediante falando coisas que não necessariamente são a
opinião dele. Dentro daquele ambiente é tudo muito mais controlado. O
que aprendi com esse processo é que existem coisas para as quais a
televisão ou o Twitter talvez não sejam o melhor ambiente. O comediante
tem que ter liberdade suficiente para expor os seus mais absurdos
raciocínios, por mais que eles sejam ofensivos. Mas eu não quero ficar
levantando a bandeira da livre comédia. Foi um processo simples, mas que
me fez aprender muita coisa.
No Brasil, humor virou questão judicial?
Em alguns
casos, sim. Isso não é uma opinião, é um fato. Se uma piada vira
processo, o humor vira questão judicial. Mas eu venho fazendo humor há
dez anos, e nesse tempo eu tive três processos judiciais. É que ficou
essa percepção de que tudo que eu faço vira processo, de que eu sou um
cara perseguido, de que eu sou uma vítima do sistema. Longe disso: o
fato é que o que acontece comigo se torna muito público.
Qual foi a pior situação que você viveu como comediante?
A pior coisa que existe pra um comediante é subir num palco e ninguém rir do que ele está falando.
Pior que um processo judicial?
Eu estou falando da
situação específica. Dá muito mais agonia para um comediante estar em
cima do palco, ser obrigado a fazer 40 minutos de comédia e no 12º
minuto ele notar que nada está dando certo. Isso é muito mais
desesperador que um processo judicial, não tenha dúvidas.
Agora que você tem um programa que é uma mistura de jornalismo e humor, vai de alguma
maneira se policiar?
Olha,
o programa é gravado, então se a gente falar “Ih, aqui passamos um
pouquinho”, dá para ter um controle maior. Mas em nenhum momento surgiu
essa conversa com a emissora. Um tanto daquela perseguição que houve,
não só comigo, mas com outros também, passou um pouco. Os ciclos estão
muito rápidos. Acho que hoje a gente está mais confortável para brincar
com algumas coisas.
Houve um momento em que você foi demonizado por muita gente.
Nessa época, você sentiu que ser comediante era uma profissão um tanto
perigosa, delicada?
Hum... Perigoso mesmo é você subir o
morro e lutar contra o tráfico de drogas. Que grande complicação pode
dar para mim o fato de ter alguém que se sentiu ofendido e eu precisar
pagar um processo? Isso não é a coisa mais absurda do mundo. Delicado é
ter que alimentar cinco filhos com um salário mínimo. Aí vou eu dizer
que ser comediante é difícil, vou me vitimizar dessa forma? Eu tenho uma
vida abençoada.
Para você, quem é o melhor apresentador no formato late-night talk show?
Ah, o [Jimmy] Kimmel. Para mim, nos Estados Unidos, Kimmel é o melhor, é mais jovem, é uma coisa superintegrada com a internet.
É um exemplo a ser seguido?
O processo que eu estou
passando agora de fazer um talk show, que é um formato que a gente
considera americano, é um processo muito parecido com o que vivi quando
comecei a fazer comédia stand-up. O que aconteceu com o stand-up é algo
que eu acho que vai acontecer naturalmente com o talk show: ele toma a
cara de quem o apresenta. Todos eles são minha inspiração, os caras
fazem isso há muito tempo. Mas não tem alguém que eu assista e fale “ah,
eu quero ir por aqui”. O que eu quero é fazer um programa que seja
brasileiro, que faça com que as pessoas assistam TV à meia-noite.
O Agora É Tarde com o Gentili tinha a presença da Juliana Oliveira, que continua no novo programa dele, o The Noite. Você pretende ter mulheres no programa?
A
gente fez teste com mulher. Mas, como você sabe, no universo de
comediantes – e de jornalistas também –, o número de homens é muito
maior do que de mulheres. Então, não vamos forçar a barra, se acontecer
de uma mulher se encaixar na nossa história, vamos deixar que seja
naturalmente. Os nossos testes não funcionaram, mas estamos loucos para
ter uma mulher com a gente.
Daria para se sustentar fora da TV e dos palcos só com seus canais na internet?
Sou
um cara que não gasta com porra nenhuma. Meu carro é de 2004. Só moro
hoje em um apartamento grande porque a minha mulher me obrigou a
comprar. Eu viveria com um salário de jornalista do Rio Grande do Sul,
onde eu trabalhava. É pouco se for comparado ao trabalho na televisão,
claro, mas seria suficiente para pagar a minha produção e ainda sobraria
para viver.
Entrevista concedida à Revista Rolling Stone!
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